Travessia Lençóis-Jeri: da Ilha do Caju à Jeri, via Parnaíba.

Ao final de nossa estada na Ilha do Caju, uma voadeira contratada com a Clipecoturismo viria nos buscar em um horário qualquer a ser determinado pela maré, seguiríamos para Parnaíba onde dormiríamos e no dia seguinte, nosso jipe, fretado também com a Clip, nos levaria à Jeri.

Era pra ser só isso, mas foi muito mais! Nesse trechinho de viagem, tivemos a maior surpresa positiva da nossa viagem. Nós nos hospedamos na Casa Ingleza (sim, com Z mesmo, do Português do Brasil Colônia).

O que aconteceu foi que a Ingrid Clark (a herdeira da ilha do Caju) havia oferecido nos hospedar na pousada que ela mesma tem em Parnaíba e que fica na casa onde ela mora.

Por um momento titubeamos, mas o pessoal da própria Clip falou: “Dona Ingrid convidou, então vá, vocês não vão se arrepender”. Confesso que achei estranho precisar de convite para me hospedar em uma pousada. Se o lugar é tão legal, por que é que não está no Guia Brasil?

Eu ainda não sei bem dizer se a Pousada de Ingrid em Parnaíba é uma pousada ou não. É uma pousada porque ela cobra diária e oferece todos os serviços de hotel, não é como se hospedar na casa de alguém. Você tem total privacidade, serviços e conforto que só um hotel pode te dar. Por outro lado, a pousada não recebe divulgação alguma, fica dentro do casarão colonial onde a família mora em Parnaíba e todos os hóspedes parecem ter sido indicados ou convidados.

A Casa Ingleza foi fundada por um comerciante inglês que chegou à Parnaíba para abastecer a região com tudo aquilo que ainda não se produzia no Brasil e que precisava vir da Europa (maquinário, tratores e toda sorte de produtos industrializados da época). A região de Parnaíba vivia uma fase próspera e havia mercado para tudo que viesse da nossa Metrópole (que naquela altura era a Inglaterra😛 ).

A história está até no site hoje, mas transcrevo aqui. James Clark veio da Inglaterra para trabalhar na Casa Ingleza e formou a família mais rica de todo o Piauí. Em paralelo ao comércio, os Clark prosperaram de tal forma com a cera de carnaúba que contribuíram com estradas de ferro e as primeiras instalações elétricas que moveram os negócios da família e iluminaram a região.

O casarão colonial que abrigava o comércio desde o início do século XIX foi crescendo na medida em que os Clark enriqueciam. A parte superior virou a casa sede da família e um pátio interno ao melhor estilo lusitano foi construído dentro do casarão. Depois, mais um piso foi levantado, onde hoje vive a família de Ingrid Clark.

Você se lembra do ditado: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Não me pareceu bem uma verdade com os descendentes dos Clark, mas ao que indica, os descendentes nobres migraram para o Rio de Janeiro e a fortuna da família foi meio diluída entre dezenas de herdeiros. Ao que consta na cidade, a Casa Ingleza ficou anos e anos fechada, caindo pelos pedaços, invadida por mendigos, sendo corroída pelo tempo e pela falta de manutenção e cuidado.

Ninguém da família se interessava nem pela Ilha do Caju e nem pela Casa Ingleza até que Ingrid resolveu deixar o Rio para viver em Parnaíba.

Ao que me pareceu com todos que conversei na cidade, os locais reconhecem o trabalho de restauração que Ingrid tem feito tanto na Ilha quanto na Casa Ingleza. Ela trouxe móveis, fotografias e documentos históricos da família e reconstituiu o casarão colonial que ela agora quer tombar para que se transforme num marco histórico da cidade. O casarão carrega a história daquela região do Piauí. Sem querer bajular a falante Ingrid, é louvável que ela receba estudantes da região em sua casa museu, auxilie artesãs na criação de peças de bom gosto aos olhos dos turistas, adicionando valor às suas obras. Ficamos bem impressionados.

O casarão foi totalmente reconstituído com peças da época. Ficou um espetáculo. A sala de estar gigante está permanentemente aberta ao pátio interno da casa. As cinco suítes são decoradas com objetos da família, fotos, etc. Tudo o que pôde foi modernizado para dar conforto do século XXI aos hóspedes. As casas de banho foram adaptadas para dar água corrente e quente aos hóspedes respeitando às condições que o Patrimônio Histórico exige para tombar o casarão. A casa toda está recheada de utensílios e objetos coloniais garimpados das casas dos herdeiros do Rio de Janeiro. Nós jamais pensávamos que Parnaíba guardaria essa surpresa para nós.

A dois quarteirões dali, está o Porto das Barcas, o principal ponto turístico de Parnaíba. Estávamos na baixa temporada e durante a semana, então estava tudo meio fechado e havia apenas dois restaurantes onde poderíamos jantar.

Escolhemos o que tinha mesas ao lado do rio. Precisei voltar à Casa para buscar repelente, pois os mosquitos da cidade não estão em equilíbrio com a natureza como seus primos da ilha do Caju. Em Parnaíba, eles queriam nos jantar.

O jantar foi delicioso, barato e gostoso. À beira do rio, descobrimos que o garçom havia trabalhado no restaurante Portucho, em São Paulo, onde a Tati costuma almoçar. Na mesa ao lado, turistas portugueses… Em Parnaíba? Os dez milhões de portugueses realmente redescobriram o Brasil!

Fomos dormir em nosso casarão (de novo, éramos os únicos hóspedes) colonial, eu me senti o próprio James Clark olhando pela enorme janela do nosso quarto e a Tati a “sinhá de Parnaíba”.

No dia seguinte, um banquete no café da manhã. Provamos todos os sucos de frutas típicas da região que eu achei que já tivesse conhecido, comemos biju, provamos todos os bolos que a quituteira da Casa Ingleza quis nos servir. Valeu por um almoço.

Em seguida, nosso jipe contratado pela Clip foi nos buscar na pousada. A própria agência fica ali ao lado. Demos uma volta pela cidade para nos despedir da simpática Parnaíba.

A estrada asfaltada que percorre o litoral do PI até a divisa com o CE indicou que este trecho de litoral precisa de investimentos para não ser apenas um balneário para o pessoal de Teresina. Não tem nada de infra-estrutura e o que tem não me agradou.

Já no Ceará, passamos por Camocim, outra cidade do interior bem simpática. Tentei achar um caixa eletrônico, mas se em Parnaíba que é a segunda cidade do Piauí só tinha Banco do Brasil e Bradesco, não seria em Camocim que eu encontraria um Banco 24 Horas, não é verdade? Bom, eu queria apenas ficar mais precavido, porque eu já estava carregando cash suficiente para minha estada de uma semana em Jeri, onde eu estava ciente de que cartões de crédito e cheques estavam sendo amplamente aceitos.

Ao cruzar a foz do rio em Camocim que nos levaria à Tatajuba e depois a Jeri, fomos sentindo o afastamento da civilização novamente.

Cruzamos mais algumas balsas até que Jeri foi aparecendo ao longe e eu não podia acreditar naquilo que eu estava vendo.
Um fato que havia nos encantado em nossa primeira visita à Jeri é que a vila crescia para dentro, não ocupando a faixa de praia, preservando a paisagem praticamente intocada. E não é que agora parecia que havia uma construção sendo levantada entre as palmeiras, em cima das pedras bem na ponta do vilarejo. Fiquei com muita raiva ao descobrir que era “a nova sede do IBAMA”. Ah, lamentável, além de não cuidar de Jeri, eles tinham que construir ali? Não dá!!!!

Bom, eu estava com medo de não gostar tanto de Jeri na segunda vez, mas não foi assim não. Jeri estava deliciosa, com mais opções de conforto, mais opções gastronômicas, melhores pousadas e com a mesma beleza natural.

Se você for a Jeri na baixa temporada e fora de qualquer feriado, você vai curtir e concluir que poucos lugares oferecem um ambiente tão despojado, simpático, lindo e com tantas opções de conforto para comer e dormir. Até a próxima.

12 Respostas para “Travessia Lençóis-Jeri: da Ilha do Caju à Jeri, via Parnaíba.

  1. Pingback: Na carona (ilustrada) dos amigos « Viaje na Viagem

  2. Adorei! Adorei!
    É o tipo do lugar que tem a minha cara!
    Beijo pra vcs!

  3. Jorge,

    Você é um ótimo contador de história e estória !! Eu não consegui parar até o final, mesmo morreeendo de cansada.

    Que charme essa Casa Ingleza, um tesouro escondido. E que bom gosto. Adorei! Beijos nas 2 meninas

    Majô

  4. Pingback: Travessia Lençóis-Jeri: em Jeri com Gira Mundo « Gira Mundo

  5. Mônica, Majô,

    Legal que vcs gostaram. Obrigado pelos comentários. Eu já estava “ansioso” por chegar na parte da travessia em que iria relatar a surpreendente experiência de Parnaíba. Foi muito legal. Essa talvez tenha sido a viagem mais bonita e gostosa que já fizemos.

  6. Como é que eu fui passar batido por esse post? Que coisa linda essa casa/pousada, amei de paixão. Jorge, não tenho dúvida que essa deve ter sido uma viagem muito especial…em todos os posts dá para sentir o prazer no viajar e no escrever.
    Com certeza é uma viagem que vou procurar colocar em prática logo.

  7. Emilia, tenho certeza de que vc vai adorar essa viagem!!!! Planeje e va’ sim!

  8. É um cenário que nos leva a uma outra época.
    De uma Phb que investia no seu potêcial e era reconhecida pela exuberância da sua natureza.
    Espero que a auto-estima desse povo volte a reinar.
    Pois é uma cidade linda e acolhedora.

  9. Olá Jorge, muito bons relatos desta aventura entre Sao Luis e Jeri. Quantos días gastou no total dessas férias?

  10. Gostaria de saber como faço para fazer reserva na pousada da ingrid klark e saber mais a respeito da ilha. Fico no aguardo. Maria fortes.

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