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Bratislava: o melhor programa de Viena

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Está tudo pronto para a festa. A decoração do salão está impecável, a divulgação da festa foi de primeira, a música pra estas bandas tem muita tradição, tem comida e bebida de boa qualidade e à vontade, a equipe de apoio distribui sorrisos para todos. Mas onde estão todos?

Só estão faltando os convidados…

É assim que eu resumo Bratislava ou Partyslava como pretende ser conhecida a capital da República Eslovaca. Esta que é a capital mais nova do centro da Europa (o termo leste europeu caiu de moda por lá, não sei o motivo) tem investido tudo o que pode em sua campanha para arrumar a casa e atrair os turistas.

Porém, Bratislava vive um dilema. A proximidade com outras capitais mundialmente conhecidas e visitadas é o principal motivo para, ao mesmo tempo, atrair e afastar os visitantes.

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Só pra ter uma idéia, nos limites de Bratislava encontram-se duas fronteiras: a Áustria está ali, no subúrbio, a menos de 6 km e a Hungria está logo depois de uma curva do Danúbio, a uns 20 km do centro da cidade. A fronteira com a República Checa, por sua vez, pode ser alcançada a menos de 60 km a partir da saída norte da capital.

Você já deve ter entendido o que isso significa. É moleza chegar a Bratislava partindo de Praga (320 km), Budapeste (210 km) e especialmente de Viena (65 km), de onde nós partimos para um bate e volta que deixou gostinho de quero mais.

É tão fácil chegar e tão perto, mas como se fazer notar e atrair turistas competindo com capitais como Viena, Budapeste e Praga? Qual é o apelo?

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Bratislava tem um pouquinho destes três mundos numa miniatura. Embora já tenha sido capital do Reino da Hungria e, posteriormente, anexada ao Império Austro-Húngaro, o sangue de Bratislava é eslavo. Os eslovacos são parentes dos morávios, que ficaram do outro lado da fronteira com os tchecos. Tchecos e eslovacos dividiam o mesmo país até 1993, então é natural esperar que Bratislava guarde mais semelhanças justamente com Praga ainda que seja a mais distante das três capitais.

Bratislava não é grandiosa como Praga, mas tem a simpatia dos vizinhos húngaros e seus bares e cafés são muito mais charmosos e atraentes do que os de Viena.

O centro antigo, a jóia da cidade, foi todo restaurado. Está impecável. Os investimentos se transformaram em novas lojas, restaurantes, cafés e hotéis. O Euro ainda não chegou oficialmente mas, além de correr solto como segunda moeda, já marca sua presença nos preços, pouco mais baixos do que os de Viena, por exemplo.

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Mas o apelo está mesmo na receptividade do povo aos turistas. Sabe aquele lugar onde você, visitante, se sente especial?
A gente se sentiu muito bem na Eslováquia, tanto que concordamos que o bate e volta a Bratislava foi o programa mais gostoso que fizemos durante nossa “viagem com bebês” a Viena.

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A Clara, nossa filha-tripulante, tinha 3 meses de idade quando cruzou a antiga Cortina de Ferro. E ela adorou Bratislava, viu?

O jeito mais legal de chegar à Bratislava deve ser pelo rio. Eu queria muito ter conseguido lugar no ferry (chamado hydrofoil) que liga Viena a Bratislava e a Budapeste pelo Danúbio mas com um dia apenas de antecedência e no verão, teria sido muita sorte.

De trem, apesar de não ser tão interessante, é tão simples quanto e mais rápido e barato. Os trens partem da estação sul de Viena em horários bem freqüentes. Dependendo do horário, você pode pegar um trem austríaco (melhor e mais novo) ou eslovaco, que só é bom se você quiser ter uma experiência “Adeus, Lênin”.

Logo que chegamos à estação central de Bratislava tomamos um susto. Só faltava a placa: Bem-vindos ao Terceiro Mundo. A estação central de Bratislava ainda está esperando os investimentos. O trem austríaco moderníssimo destoava de toda a imagem a nossa volta. Tudo muito velho, abandonado, aqueles carros russos… E a gente, ali, dando de mamar à nossa pequena Clara. Sei não, sei não…

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Prevendo o pior, eu havia anotado o nome de um ponto da cidade que, pelos relatos obtidos na internet, me pareceu um porto seguro. Sim, porque chegar numa cidade estranha (num país estranho), com um bebê de 3 meses, para um passeio bate e volta, sem ter noção de onde ir, é arriscar demais o programa. Eu precisava de um lugar-base que fosse, em si, um programa, caso a gente não gostasse de nada.

– “U.F.O.”. Foi tudo o que eu disse (meio com cara de alienígena) para o taxista que, gentilmente, abriu a porta do carro para a Tati, o porta-malas para o Cadillac da Clara e que não falava nada de inglês comigo.

Não precisava. O U.F.O. é um dos principais pontos turísticos de Bratislava e pode ser visto de quase qualquer lugar. Em dois minutos no carro já dava pra vê-lo ao longe, como um disco-voador sobre a ponte que atravessa o Danúbio.

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O U.F.O. é restaurante, bar, café, observatório e que, ainda, se transforma em balada à noite. É sim um lugar internacional mas com simpatia bem eslovaca. Em princípio pensamos que aquele ambiente modernoso e requintado jamais receberia bem um casal de turistas (vestidos como tais) empurrando um carrinho de bebê com uma mini-turista a bordo.

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Pois fomos muito bem recebidos e comemos maravilhosamente bem. Uma delícia de comida internacional acompanhada de um vinho branco eslovaco muito bom. Aproveitamos a super vista para planejar o nosso passeio seguinte, pelo centro antigo da cidade, com a ajuda do nosso garçom bilíngüe que ainda nos contou muito sobre a transformação que a Eslováquia e Bratislava, especialmente, têm sofrido. O bate e volta já teria valido a pena ali.

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(A vista da frente do restaurante é para o castelo e o centro da cidade. A do banheiro masculino, veja detalhe das latas, é para os antigos prédios residenciais comunistas… Haveria aqui uma mensagem subliminar?) 🙂

Ainda assim, atravessamos “de carrinho” o Danúbio e descemos para nos embrenhar pelas ruas da cidade antiga.

A moça da feira de artesanato que nos vendeu um brinquedinho para a Clara parecia chocada ao saber que aquele único casal de turistas que olhava a barraca dela havia vindo do Brasil e que carregava uma brasileirinha no carrinho. Como ela achou a Clara linda, a gente adorou a moça.

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A gente viu diversos restaurantes, bares e cafés bacanas. Prédios lindos. O castelo estava lá no alto, vimos só de longe. Deu vontade de ficar mais para aproveitar aquilo tudo. A gente só tinha uma tarde. Pena.

Por todas as ruas, parecia que tudo havia sido inaugurado naquela semana. Tudo novinho. E todo mundo tão simpático! E tudo tão vazio? Por quê?

Pra onde foram todos?

Para a estação de trem. Todos os poucos turistas estavam lá pra tomar o mesmo trem que nós no final da tarde em direção a Viena. Para todos os turistas, Bratislava ainda é só um bate e volta.

Da próxima vez, o nosso bate e volta será a Viena.